RELIGIÃO, MÍSTICA E PROFECIA

A peregrinação de Vazantes do Aracoiaba ao Santuário de São Francisco das Chagas de Canindé/CE chega ao seu término e contou com o apoio do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco (PPGCR) e do Instituto Humanitas Unicap (IHU).

O calendário marcava: 800 anos do trânsito de São Francisco de Assis (1226 – 2026) e 40 anos da existência do Grupo de Peregrinas e Peregrinos do Nordeste – GPPN (1986-2026). Esses acontecimentos motivaram percorrer a pé uma quilometragem de 133 quilômetros visitando e bebendo na fonte de uma região rica em histórias. A programação da peregrinação foi voltada à espiritualidade, à memória histórica e ao compromisso social. A mestranda do PPGCR Amanda Nascimento destacou que:

“A peregrinação une religião, cultura e ação social ao transformar a jornada física em um espaço de vivência comunitária, ou seja, ela conecta o saber acadêmico à realidade das comunidades por meio da extensão universitária e gera novos saberes práticos”.

O percurso seguiu o itinerário seguinte: Vazantes, Aracoiaba, Baturité, Mulungu, Lameirão, Aratuba, e Balança, seguindo até Canindé de São Francisco. Importante recordar que esse caminho corresponde aos limites da mais nova diocese do Brasil, instalada em 25 de março de 2026, e que abrange 14 municípios.

O envio da peregrinação foi feito pela coordenação da comunidade de Vazantes do Aracoiaba: lugar onde os pássaros cantam e as pessoas fazem a história. Lugar de resiliência e resistência. Foi neste lugar que um grupo de 11 peregrinos/as chegaram para iniciar a caminhada.

O encontro com pessoas comprometidas com as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, deu a tônica da peregrinação. Como expressou Solange Silva das CEBs da cidade de Mulungu:

“a comunidade está muito feliz porque já aguardava há dias esse momento e é uma força para nós receber essa visita e é uma confirmação que estamos no rumo certo da missão”.

O GPPN é formado por pessoas de diferentes estados brasileiros e de diversas realidades sociais. Ao longo de quatro décadas, o grupo percorreu aldeias indígenas, comunidades quilombolas, assentamentos, santuários e lugares relacionados às lutas populares, como Canudos de Antônio Conselheiro, o Quilombo dos Palmares de Zumbi, o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto do beato José Lourenço, Sapé palco das Ligas Camponesas de Pedro Texeira entre outros. Em mais de uma vez fez o caminho das Casas de Caridade criadas pelo Padre e Mestre Ibiapina.

Há uma grande relação entre a comunidade itinerante, o espírito de Francisco de Assis e o arquétipo (modelo original) do peregrino russo. Residem na vivência da radicalidade evangélica, do despojamento material e da Oração contínua do Coração. Esse sentido religioso transforma a própria estrada e a condição de estrangeiro/itinerante em ações comunitárias como visitas a famílias, a pessoas adoecidas e abertura para a escuta fazendo rodas de conversa e celebrações preparadas em diálogo com cada comunidade. Durante o caminho, o grupo também observa expressões do catolicismo popular, como as capelas construídas às margens das estradas, e escuta as histórias das pessoas responsáveis por preservar esses espaços.

Em Baturité, o grupo de caminheiros, teve a oportunidade de visitar a catedral da nova diocese, sobretudo fazer uma parada para descansar ao lado do Mosteiro dos Jesuítas que atua principalmente como uma imponente casa de retiros espirituais, acolhendo visitantes para eventos e reflexão. O Pe. Antônio Mota.sj, orientou um momento de reflexão como também partilhou o pão (Atos 2,42-47). Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio (EE) foi o motivo central da parada no Mosteiro. O tema do encontro: “passemos para a outra margem” (Mc. 4,35).

“Foi de grande emoção e sentido para a peregrinação passar uma manhã no Povo Indígena Kanindé”, afirmou o professor Artur Peregrino.

O povo indígena Kanindé tem uma forte presença no município de Aratuba, precisamente na localidade do Sítio Fernandes e em Canindé. Visitaram também a Escola da Aldeia e lá fizeram uma roda de conversa com o indígena Suzenalson Kanindé, filho do cacique Sotero Kanindé. Ele é um historiador, agente cultural e educador indígena do povo Kanindé e que faz o doutorado em História Social pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – Unilab.

A chegada em Canindé foi marcada por um tempo de silêncio e observação no santuário. Logo em seguida foram acolhidos por Frei César Lindenberg, OFM, guardião do Convento de São Francisco, que entendeu e acolheu a peregrinação.

Finalmente, chegaram em um ponto especial para os romeiros: a imponente estátua de São Francisco das Chagas, que fica no Alto do Moinho e tem 30 metros de altura.  O monumento traduz a devoção dos romeiros que chegam ao sertão pagando promessas e renovando suas esperanças.

Com o apoio do PPGCR da Unicap, a peregrinação Rumo às Fontes fortalece a extensão universitária como espaço de aproximação entre pesquisa, espiritualidade e compromisso social. Ao percorrer estradas e comunidades cearenses, a caminhada promove a defesa dos direitos humanos, o diálogo inter-religioso, a valorização das culturas populares e o cuidado com a Casa Comum.

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